domingo, 13 de março de 2011

Por nada menos que “a coisa”




Relacionamentos, encontros, desencontros... 

Um dos meus poetas prediletos, Pablo Neruda, tem um livro de poesias em forma de perguntas. Cada verso é uma dúvida... Fiquei pensando que, escrever sobre o amor, deveria ser sempre assim, com o ponto de interrogação ao final (e não é?). Pois bem, esse foi o estopim para este texto: uma pergunta! É que, dia desses, uma amiga me cercou de perguntas e, na hora, as respostas que vieram em minha cabeça eram muitas e sem muita coerência. Antes de sair por aí fazendo afirmações das quais nem eu tinha certeza, vim organizar as ideias.

Acho que a questão se resume assim... se quando conhecemos alguém, que tem potencial para entrar em nossa vida, se, para que isso aconteça, tem de haver algo especial desde o começo? Aquilo que chamam de química. Aquilo que faz o coração disparar e a alma arrepiar-se quando se está perto. Muitas vezes nem é preciso estar perto, um simples pensamento pode trazer enjôos e palpitações. Então, afinal, estes sintomas são necessários desde sempre? Ou podem aparecer com o tempo? Existe uma regra para isso?

Lembro que quando terminei um relacionamento, uma das lições que aprendi é que ter toda essa coisa cósmica com alguém não adianta de nada se não tiver outras coisas, tais como afinidades e respeito.

Tem quem escolhe ingressar em um relacionamento somente por pura química, tem outros que decidem embarcar numa relação somente por ter achado um “bom partido” (seja lá o que isso significa). E tem quem une os dois. Assim como tem quem dispensa se não tiver os dois. Se existe um caminho certo, qual seria?

Comecei a observar a história de alguns relacionamentos e a questionar as pessoas ao meu redor sobre todos os relacionamentos que tiveram. A maioria já iniciou uma relação em ambos os casos, ou seja, com ou sem “a coisa” no começo.

Lembro que quando terminei um relacionamento, uma das lições que aprendi, é que ter toda essa coisa cósmica com alguém, não adianta de nada se não tiver outras coisas, tais como afinidades e respeito.

Uma das minhas fontes me ajudou a tirar uma conclusão disso tudo. Contou-me que por muito tempo tentou encontrar, incansavelmente, a tal da "pessoa certa”. Várias vezes se deparou com alguém que tinha chances de ser esta pessoa, mas, na falta da “coisa", ela deixou passar. Até que se cansou, e conheceu alguém potencial, porém sem sentir “a coisa”. Mesmo assim, decidiu apostar suas fichas. Parece que deu certo. Me contou que construíram um amor, uma história.

Acho então, que não existe um certo ou um errado, ou uma regra (conclusão previsível tratando-se de relacionamentos amorosos). Acho que tudo pode ser. Algumas pessoas - por carência ou cansaço, ou sei lá o que - resolvem sossegar o coração e ter um relacionamento, com ou sem “a coisa”. E têm outras pessoas que se recusam a aquietar-se enquanto não sentirem aquele frio na barriga.

Sinceramente eu não soube dizer para uma amiga se ela deveria ir em frente mesmo sem arrepio inicial, ou se ela deveria pular fora e só se envolver quando sentisse essa irradiação divina. Eu não sei da vida dos outros, não sei o que é essencial na vida de cada um e, por não achar que isso é algo que se aplica à todos, acho que foi bom nem opinar. Da minha vida eu sei! E, apesar de ter aprendido que de nada adianta sentir calafrios e irradiações especiais sem todo o resto, também, para minha vida, não adianta todo o resto se eu não sentir que meu universo se transforma por conta da existência de outro alguém. Cada um é cada um, mas eu não me aquietaria por nada menos que aquela coisa mágica me socando a espinha. Ainda que, como disse Caio Fernando Abreu, “depois venha o tempo do sal, não do mel”.

terça-feira, 8 de março de 2011

Palpites e outras coisas sobre o carnaval da Sapucaí

Amanheci para ver o tão esperado desfile da Beija-Flor. Como já imaginava, dizer que é tão esperado é algo que a mídia vem pregando na cobertura deste carnaval, e que o povo acaba seguindo.
A Beija-Flor fez um desfile bonito, trouxe uma proposta nova de ter um desfile mais simples, fantasias mais leves. E, para mim, comentar a participação do cantor Roberto Carlos poderia ter sido menos sensacionalista. Pode ser carnaval, mas o jornalismo não deveria entrar no oba-oba e perder o compromisso de noticiar com um tanto de imparcialidade.

Acho que a luz do dia prejudica um pouco o brilho de um desfile, mesmo assim não acho que a Beija-Flor seja candidata ao título este ano. E, se tem algo bacana que a Globo fez neste festerê todo foi uma votação de brincadeira por parte do público, que hoje cedo, terça-feira de carnaval, foi encerrada. Claro que os critérios de avaliação dos jurados são bem mais refinados que o do povo. Ainda assim, acho que a opinião unânime nos faz refletir. Para o povo, a Beija-Flor ficou em último lugar.
Foi bem engraçado e contrastante ver três repórteres passarem uma hora (duração do desfile da Beija) enaltecendo o - como eles mesmos repetiam - "rei" Roberto Carlos, sem economizar nos adjetivos. E então, logo ao final da cobertura, ver o resultado da votação de brincadeira com o público colocando a escola em último.

Acho essa coisa do carnaval carioca - por mais glamouroso e profissional que tenha se tornado, uma cultura popular riquíssima. Ter uma cobertura da rede Globo com essa proporção para um evento popular ligado a comunidade é um reconhecimento merecido, mas que não alcança o que essa festa tem de mais bonito, de mais brasileiro, mais comunitário. E a beleza é essa, no fim das contas: ver toda a perfeição de cores e brilhos e criatividade e saber que isso só é possível porque, por trás disso tudo tem milhares de mãos de uma comunidade apaixonada.

É uma pena que, em momento algum - nem este ano, nem em outros que venho observando, qualquer comentário pertinente tenha sido feito nesse sentido, ou em tantos outros sentidos interessantes que poderiam ser explorados. No lugar disso, os comentários eram vazios, sem conteúdo, sem informação, sem nada.

Sempre perguntando para quem quer que fosse "você está emocionado?", tendo em mãos a resposta mais previsível possível: a resposta que se queria ter.

Nem o "rei" escapou da pergunta ordinária. E, ainda mais previsível respondeu - como não poderia deixar de ser - "são tantas emoções". Eu queria era ver o Roberto Carlos falar de como foi conhecer a comunidade de Nilópolis, que é movimentada e cresceu tanto por conta do carnaval.

Cresci passando meus carnavais confinada na sala de uma casa de praia, com meu avô torcendo para Beija-flor. Então eu torcia com ele. Contudo, sempre tivemos uma quedinha pela Vila Isabel, acho que por conta da participação do Martinho da Vila, cantor e compositor que tanto gostamos.

Ano passado, em visita ao Rio de Janeiro, uma das coisas que queria fazer era ver uma quadra de escola de samba. Mesmo que não pudesse entrar. Minhas amigas cariocas me acharam doidinha, porque ninguém vai ao Rio para passear, por exemplo na Vila Isabel. Mas esse foi nosso destino numa tarde de novembro. Nilópolis era muito longe para eu conhecer, disseram elas, mas a Vila era ali, do ladinho da casa delas.

Caminhamos pela Vila, passando em frente aos seus botecos boêmios. Numa ponta a estátua de Noel Rosa e, ao longo da calçada, as partituras deste mesmo compositor.

Cheguei a frente da quadra da escola, era um dia de semana qualquer... Na portaria, perguntei se por acaso eu poderia dar uma olhadinha rápida na quadra. A quadra do Noel, do Martinho. "Claro que pode, aqui pode tudo mermão", foi a resposta que tive.

Não sabia que era assim, tão fácil e barato um privilégio desses. Difícil e caro acho que são características salvas para o Cristo Redentor e Pão de Açúcar que, a propósito, eu não cheguei a conhecer.

A quadra estava vazia e eu cheia. Embasbacada: tudo ali dentro me deslumbrava...
De repente, alguém me chama: "Tu não é daqui não, é?". "Sou não", disse eu, ainda sem conseguir conversar com ninguém, ainda olhando para cima e para os lados.

Quem me chamou foi o Marquinhos, líder da bateria da Vila. Conversei com ele, contei do quanto me era raro estar ali. Ele me chamou pra desfilar na ala da comunidade, mas eu precisaria ir todas as quartas dali em diante aos desfiles e, infelizmente, eu não tinha condições. Me levou para conhecer todo mundo da Vila, intérpretes, mestre-sala, compositor. Todo mundo.

Para minha sorte, ainda naquela semana, teria uma festa de coroação da madrinha de bateria deles, a Sabrina Sato, ex-BBB e atual "repórter" do Pânico na TV. Digo sorte pois pude prestigiar uma festa da comunidade. Conheci os bastidores da festa. Eu e minha amigas cariocas fomos tratadas como convidadas vips ali. E digo vip no melhor dos sentidos. Dentre as nossas regalias destaco ouvir os carnavalescos, moradores de algum morro ali perto, falar sobre a vida no morro, sobre a nova política de segurança dos morros e, como não poderia deixar de ser, falaram sobre o desfile. Outra vantagem foi poder andar no meio da bateria - em ação - da Vila. Ali, no meio do batuque, da vibração, dos sorrisos escancarados, consegui tocar fatias do que fica enclausurado e omitido na Sapucaí.

Me lembro do Pepê, intérprete da Vila Isabel, falar com paixão, como quem dói, como quem expressa-se da forma mais sincera: "No dia do desfile, a gente esquece de tudo. Das contas, dos problemas. É como se a vida valesse a pena por apenas um dia no ano".

Uma vida toda feita da espera de um dia do ano. Uma vida a vigília de, pontualmente, um hora e vinte e dois minutos tirados de um ano.

Sempre assisti aos desfiles, desde pequena, pensando que algo muito grandioso se escondia por trás daquele único dia na Sapucaí. Aquela tarde, na quadra da Vila.

Na desesperança de - após tantos anos - ver uma cobertura que alcance tudo o que isso realmente implica, uma cobertura mais plena deste evento - quem sabe, algum dia, consiga fazer mais do que vir aqui e criticar. Quem sabe consiga fazer o que deveria ser feito.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Urbana-politana

Esta semana completei um mês morando em São José dos Pinhais, região metropolitana da minha – agora meio que distante – Curitiba. E, apesar de estar aqui por falta de opção (até tinha mais uma: morrer de calor em Foz do Iguaçu), vim registrar minha experiência, pois tem sido infinitamente melhor do que eu poderia presumir.

Imaginei que seria ruim. Não exatamente por ter algo contra São José, somente por ter tudo a favor de Curitiba, especialmente pelo centro da cidade que é o meu lugar favorito. Mesmo antes de morar lá, sempre gostei de tudo aquilo, desde que me entendo por gente. Lembro-me de andar na Rua XV de Novembro com a minha mãe, ir à Confeitaria da Família, ou comer x-pernil com meu pai na frente do bondinho. Minha cabeça de menina tinha curiosidade pelo tipo de pessoa que residia por ali. Imaginava se elas gostavam tanto de passear na Rua das Flores como eu. Ou se morar ali fazia disso pouca coisa. (Igual pensava dos moradores litorâneos...)

Depois cresci. Cresci e nunca deixei de ir às feiras na Praça Osório, tomar quentão com gemada na feira junina, sentir o cheiro da biblioteca pública sábado pela manhã, e integrar uma roda em volta de um grupo chileno que sempre cantava “Guantanamera” na Boca Maldita. Também tem a feirinha do Largo no domingo cedo. Tropeçar num Hare Krishna e comer bolinho de aipim com carne seca. Lá também é o paradeiro de muitos curitibanos na sexta à noite. Todo mundo caminhando feliz, no largo colorido, envolvidos em uma energia alcoólica.

Morando no centro descobri que nada perde a graça não. Me apaixonei por todos e cada elemento ‘urbanóide’. Mesmo os ruins e os feios! (Admito que tenho um gosto pelo feio, pelo sofrido, acho lírico, fazer o quê?).

O centro da cidade é uma música de ritmo frenético. Carros e outros barulhos ajudam a compô-la. Buzinas zombem para não deixar ninguém esquecer que há vida lá fora.

Mais vivo que isso são as praças e seus personagens. Os que dormem nos bancos, os vendedores ambulantes com seus slogans gastos. As ciganas da Ruy Barbosa, os punks da Tiradentes, os mendigos do Guadalupe. Para mim, são eles que compõem o traço poético da cidade.

Já, em São José, o que não me deixa esquecer que há vida lá fora são as cenas mais serenas, em câmera lenta...
No começo, para o dia-a-dia, tudo parece mais difícil. Ficar sem um centavo na carteira achando que cartão de débito resolve é um mero engano. Por outro lado, descobri que a quitanda aqui da esquina vende as verduras da horta que fica logo ali, na outra esquina.

Mas, a minha parte favorita é a população canina. Aqui moram os vira-latas mais melancólicos e pidonhos que já vi! Carentes e sedentos por amigos, bem como o povo daqui. Todo mundo é amigo de todo mundo e as pessoas têm um tratamento bem informal. Por exemplo, quando quero ir à farmácia, não vou à Nissei 24 horas, vou ali no Toninho. E também não faço compras no Mercadorama e sim no seu Genípulo, ali na esquina.

Quase esqueci o quanto pode ser sutil viver mais assim, sem barulhos indistintos. A vida aqui é mais lenta, os dias são mais longos. Um lugar para ter a sensação de que a vida é isso aí mesmo: sair pra buscar pão duas vezes ao dia, conversar com os vira-latas numa esquina...

São José tem um cheirinho de liberdade e o horizonte parece tão mais próximo que dá uma sensação de que o dever está cumprido, mesmo quando não está.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Entrar na roda e amar - “a sede infinita"

“O mundo muda, o amor permanece”. É isso que diz Charles Aznavour, em uma das suas tantas canções de amor. Ele tem razão. Apesar de, nossa forma de demonstrar e viver um amor ter se modificado tanto - paralelamente com todas as inovações e transformações das sociedades, o amor permanece! E, acho que mais que isso, a nossa vontade de amar e ser amado se mantém intacta, talvez até maior.
O assunto é o amor, sempre é! Para onde olho há gente falando sobre isso. Uns falam sobre o amor que esperam, outros sobre o amor que chegou, ou nasceu, ou renasceu, ou morreu.  Os mais próximos falam do amor que não floresceu.
O amor está nas minhas canções favoritas, livros, filmes, memórias. Acho mesmo que ele permanece. Porém não acredito que um amor possa ser eterno. Melhor dizendo, eu já não acredito mais no “juntos para sempre”.
Tá todo mundo no mesmo barco, fadados a querer um grande amor. Drummond já dizia:
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?

Até aí tudo bem. Que podemos senão entrar na roda também e amar? Tudo bem pedir aos céus um grande amor, normal, ué! Mas que peçamos com consciência do que isso representa. Ou seja, entender que o amor não é um negócio, um acordo, ou um contrato. Entender que não podemos determinar o tempo, e que não temos controle algum sobre tal sentimento. Falar em solidez quando se ama é definitivamente o que nos frustrará em algum momento. A única certeza que podemos ter é a certeza do incerto. Nada mais.
E aí, a gente se pergunta: qual o sentido disso tudo? Qual o sentido dessa coisa instável que chamamos de amor? Acho que o sentido é somente deixar ser, seguir o fluxo, deixar vir e deixar ir. E também saber gozar do amor como um todo, vivê-lo plenamente: na alegria e na tristeza.
...amar o inóspito, o áspero, um vaso sem flor.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão...

Sou uma em um milhão que já tentou entender, milhares de vezes, em inúmeras situações, o que é o amor. Temos tanta necessidade dessas respostas e erramos por pura ignorância. Hoje, sou bem grata à minha vida por, finalmente, ter me feito entender um pouco – mesmo que do pior jeito – em que linha, essa coisa aí funciona – lembrando que o entendimento não muda em nada os acontecimentos, somente a forma como vamos lidar com eles.
Houve um tempo em que eu acreditava em contos de fada. Acreditava que encontraria alguém e seria feliz para sempre, simples assim! Foi com muito custo que aceitei que não é assim que funciona. Fui bem frustrada por muitos anos, por não querer aceitar que “o pra sempre, sempre acaba”. No entanto, acredito que se insistimos em querer eternizar as coisas é porque algo na gente realmente é eterno. Há de ser esse nosso gosto vivo de querer amar e ser amado.
Minha amiga me alertou várias vezes: “essas coisas não têm idade”. É verdade. Nunca somos muito novos para amar e nem muito velhos. Estamos indeterminadamente famintos por amor. Porém, o amor se esgota e acho eu que é essencial ter isso em mente e fazer as pazes com esse fato. O amor não é eterno, mas a nossa vocação para amar é sim!

...na concha vazia do amor à procura medrosa e paciente
de mais e mais amor.
...e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Oldies but goldies


Eu sempre digo que sou uma garota anos 80. Eu nasci nos anos 80, mas sempre tive uma inveja boa daqueles que passaram a adolescência nessa década. Meus tios me contam das festinhas na garagem regadas à refrigerante, gente colorida e muita música, enquanto eu fico me perguntando se nasci meio atrasada. Que nada! Graças à tecnologia eu posso acompanhar a década que eu quiser, ouvir, assistir (aliás, assistir era algo que eles praticamente só tiveram acesso com nosso querido youtube!).
É claro que cada época tem seu brilho e sua própria energia, e isso não há tecnologia que registre. Mas eu sou bem feliz pelas bandas que vi surgir e pude acompanhar. Afinal, a energia que eu sentia ouvindo Green Day, trancada em meu quarto, e sentindo que eles me entendiam, é algo que eu realmente não escolheria deixar de viver...
O papo aqui em casa ontem era música. Aliás, tem sido todos os dias! Vim morar temporariamente com a minha mãe e meu tio. Após duas semanas, consigo contar nos dedos os momentos em que não falamos sobre música. Meu tio mais novo é músico, e o é com tudo o que a palavra significa. Não é só a profissão dele, mas também a vida toda. Basta um computador com acesso ao youtube que ele vem e diz: “Deixa eu te mostrar uma coisa que você vai pirar”. E bingo! Eu sempre “piro” mesmo! A primeira da noite foi lá dos anos 70: Gary Glitter. É o tipo de música que chamam de Glam Rock. Passamos do tio Gary para Bonnie Tyler com “It’s a heartache” e uma bela espiada em vários clipes da Suzie Quatro (que voz! E ainda mandando ver no baixo!).


Fizemos umas sessão Michael Jackson e meu tio mostrou o clipe favorito dele “Don’t stop till you get enough”.  Eu contei que minha música favorita é “Beat It” e ele me contou que quem faz o solo é o guitarrista do Van Halen.  Haja conexão! Claro que matamos a saudade de ouvir “Jump”! Nesse meio tempo mostrei a versão indiana de thriller para o titio (imperdível!), afinal não é só ele que tem cultura musical, né? (brincadeira, juro que vou além disso!).

Chegamos aos anos 80 com os clipes de uma banda chamada Devo, eu nunca tinha ouvido! As cabeças dos integrantes da banda em cima de uma batata foi a coisa mais engraçada da seleção musical da noite. Viciados nos péssimos efeitos visuais provindos dessa época, eu e meu querido tio, vasculhamos o mundo virtual em busca dos piores clipes, e encontramos algumas pérolas que vou compartilhar aqui.
Demos uma avançada para os anos 90 e uma paradinha na era Grunge. Pearl Jam, algumas bandas das quais eu nunca ouvi falar e Nirvana, lógico. E quando vimos estávamos curtindo Foo Fighters e achando Dave Grohl o cara! (Ah, ele é mesmo!). Quando paramos de disputar o teclado, percebemos que estava na hora de parar, eram três horas da manhã em plena segunda-feira. Eu fui dormir com a alma bem nutrida e meu tio com a melhor das nostalgias.

 Me ajudem a votar no pior, please!

Modern Talking – Geronimo’s Cadillac /  Pior parte: passarela de rosas.

Kate Bush - Wuthering Heights / Pior parte: saber que foi o David Gilmour que descobriu esse talento.

Bangles - Walk Like an Egyptian /  Pior parte: ver a princesa Diana “andando como um egípcio”.

Milli Vanilli - Girl you know it's true /  Pior parte: quando eles pulam e se chocam no ar.

Toto - Rosanna /  Pior parte: a suposta Rosanna dançando.

Devo - Time Out For Fun /   Pior parte: as cabeças nas batatas.

 

 

 


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Quão perto estou de quem realmente sou?

“I guess I couldn't live without the things that made my life what it is” (Too young / Phoenix / Lost in Translation soundtrack).

Dezembro chegou e foi embora, assim como qualquer outro mês. O natal passou e a transição do ano também, e eu só consigo pensar no quanto isso tudo já não faz mais diferença alguma para mim. 
Minha família sempre deu muita importância para as festas de fim de ano. Cresci amando isso e sempre me senti  diferente no final do ano. Mas não senti isso esse ano. Não senti nada de diferente que eu não poderia sentir em qualquer outro mês. Fiquei pensando sobre isso, sobre um possível motivo para não sentir nada demais. 
Hoje, vinte dias após o começo oficial do ano, eu me peguei incomodada por não ter sentido que nada de diferente realmente aconteceu, incomodada por ter me desprendido de heranças familiares - que mais são regras de como devemos nos sentir. Eu me diverti na festa de natal, assim como me diverti em todas as outras festas da minha família durante o ano todo. Tenho que confessar: minha família é divertida, sabem mesmo como fazer qualquer ocasião valer a pena, e isso me tira da lista das pessoas que acham a festa de natal em família um saco. Só que percebi que carrego muitas crenças da minha infância e fico repetindo sentimentos infantis que já não fazem mais sentido algum na minha vida, e quando eu me incomodo por não me sentir diferente quando dezembro chega é somente porque eu consegui me desapegar de mais alguma coisa inútil na minha vida, e a melhor parte é só perceber que isso aconteceu quando já está acontecendo há muito tempo.
A minha hora de fazer um balanço sobre o ano é realmente agora, mas só porque eu tenho muitas coisas novas coincidindo com o começo do ano, meu recomeço mais uma vez. O que eu tenho para dizer sobre 2010 é que foi um ano fantástico, um ano onde eu não precisei esperar o natal chegar para me sentir diferente, para sentir alguma magia louca no ar, porque eu me senti diferente todos os dias do ano. “Bonito mesmo é essa coisa da vida: um dia, quando menos se espera, a gente se supera. E chega mais perto de ser quem - na verdade - a gente é”. Li essa frase e fiquei me perguntando o quão perto estou de quem realmente sou? E acho que nunca antes estive tão perto. Me sinto sincera comigo mesma como nunca antes, me sinto bem próxima de mim mesma, cada dia mais perto. Pela primeira vez na vida, eu me sinto confortável sendo quem eu sou, eu não gostaria de ser nenhuma outra pessoa, eu não trocaria de lugar com ninguém, definitivamente.
Pensei nisso tudo enquanto escutava More than this da trilha sonora de Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003). “…As free as the wind / Hopefully learning / No care in the world / Maybe I'm learning / More than this you know there's nothing”.
O filme mostra exatamente o que aprendi este ano. Mostra o quão belo os relacionamentos podem ser (independente do desfecho), mostra um pico de cumplicidade entre duas pessoas. É o retrato perfeito de um desencontro que se eternizou. Simples assim. Uma história de amor sem a necessidade de romance. É um tal de encontro, logo existo e logo me escapa. Logo acaba. Logo permanece. Escapa e não necessariamente perde-se, do contrário, ao mesmo tempo que nos foge, se prende, nos prende. Ao mesmo tempo em que termina, começa. É mais eterno do que o que aparentemente fica para sempre. É uma coisa muito dúbia e muito interligada, é um ciclo sem ordem, é uma desordem, e é lindo. É a prova de que a vida consiste muito mais em encontros seguidos de desencontros, do que em encontros que duram para sempre, mas ao mesmo tempo, mesmo o que não dura para sempre, tem vida eterna, e sinceramente, não sei mais explicar o que isso significa, mas o filme é uma ótima forma de entender essa dubiedade toda.
Enfim... fiquei associando tudo isso ao filme - esse meu conforto todo comigo mesma. Revirei algumas anotações que fiz enquanto assisti, e fiquei pensando no meu ano que foi todo feito de encontros e desencontros, assim como o filme. Este ano, em especial, foi um ano que dissequei cada um dos meus 'esbarros' e acasos, prestei atenção e destrinchei cada colisão da vida como nunca antes e, principalmente, aprendi sobre a beleza de tudo isso, mesmo quando - parece - triste. E isso me mudou para sempre.
       
        [Charlotte: I just don't know what I'm supposed to be.
                        Bob: You'll figure that out. The more you know who you are, and what you want, the less you let things upset you
]. (Lost in Translation | 2003)

Sinto que quanto mais observo as pessoas que cruzam meu caminho e as situações, mais consigo entender. Procurei ter um olhar mais humano sobre todos e isso ajuda a ter uma melhor compreensão de tudo o que nos acontece, e não perdemos mais tanto tempo ficando chateados com as pessoas ou situações. A frase de Bob, personagem do filme, me faz entender porque, mesmo me sentindo estagnada por vezes ou diante de contratempos da vida, eu não deixo mais que as coisas me deixem triste ou desanimada. “Quanto mais você sabe quem você é e o que você quer, menos você deixa que as coisas te deixem triste”.

       Agora escuto Just like honey, da mesma trilha: “Escute a garota, enquanto ela enfrenta meio mundo, escalando as alturas e tão viva, em sua colmeia que vem pingando mel. Colmeia. É bom, tão bom, é tão bom. Tão bom”. Passei o ano inteiro escrevendo sobre isso, e não me canso de falar disso, é algo que me enobrece tanto, mas tanto, que não consigo dar fim ao assunto, simplesmente porque é bom, tão bom, é tão bom. Tão bom!





sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Neste natal, pratique algo que atrapalhe sua própria vida

    Em abril deste ano, fui assaltada perto de onde moro, no centro de Curitiba. Só me levaram o celular e um pouco de minha sensação de liberdade de andar por aí. No mesmo dia prenderam meu assaltante e me perguntaram se eu gostaria de apresentar queixa. Me explicaram no que isso implicaria: um dos policiais me disse que eu ficaria empenhada tendo de ir à julgamento. Outro me disse: "se você fizer isso, ele vai preso por conta de um celular". Liguei para algumas pessoas pedindo opinião, estava indecisa e desprovida de conhecimentos nesses casos. Resolvi que o correto era sim apresentar a queixa. Achar que aquele moço seria preso por que eu quis e por conta de um celular, fazia me sentir a pior das criaturas, pois, para ser sincera, meu celular significava nada!
    Na delegacia, conversei melhor com o delegado sobre este meu sentimento. Ele me disse que eu deveria fazer isso, não pelo celular, mas pelo assaltante que já era um alguém sem existência, tomado pelo vício do crack e que poderia ter me matado se eu não tivesse nada para entregar-lhe. O moço tinha mais cinco registros de assaltos como o meu. As pessoas registravam, mas não queriam se comprometer como testemunha, e ele era solto então. Se alguém antes houvesse representado, eu não precisaria ter passado por isso, foi o que o delgado argumentou. Decidi assim - com toda a ciência do que isso significava - representar como testemunha. Ele foi preso e eu fui para minha casa com medo de sair e ser assaltada novamente, tão presa quanto ele: ambos vítimas da sociedade. Fui intimada para comparecer à audiência e não pude de jeito algum comparecer naquele dia. Então o oficial me intimou para uma segunda audiência, foi grosso comigo, disse que se desta vez eu não comparecesse seria emitido meu mandato de prisão. Me disse ainda que eu brinquei e não dei importância da primeira vez e, portanto, teria de pagar uma multa por isso. E assim, de vítima eu estava à um passo de ser companheira de cela do meu assaltante.

       Eu viajei e tentei adiar a audiência, mas não teve jeito, tive de comparecer porque me ameaçaram de responder processo por desobediência e ser presa sobre fiança. Chorei de raiva, senti como se tudo o que eu fiz para ajudar a sociedade, ajudar o menino que trocou meu celular por uma pedra de crack - já que até a prisão era melhor que o limbo em que ele vivia - senti que isso se voltou contra mim. Foi uma revolta e tanto, tive de gastar dinheiros não programados para voltar de viagem e voltar novamente, tive de perder um dia de férias com o meu pai, fui tomada por uma sensação de falta de liberdade. Fui à audiência. Dei meu depoimento, exatamente como fiz na delegacia no dia do roubo, só que dessa vez não sentia que fazia algo importante para o bem de todos... Até descobrir que o réu estava solto desde outubro e que deveria estar presente ali hoje, mas não havia comparecido. Quis saber mais sobre ele... O nome dele é Lucas, ou ao menos acham que é, pois ele não tem documentos e tudo o que sabem dele é pelo depoimento que deu. O promotor, que fez minha defesa, me disse que eu fiz um bem a vida do rapaz, que ele estava perdido nas drogas e que o tempo em que ficou preso ele comeu e voltou a ter saúde, até engordou, além de não usar drogas. Me contou também que o juiz, ali presente, havia conseguido uma vaga em uma clínica de recuperação para ele, e que o Lucas estava feliz com isso, até prometeu se internar, assim como prometeu comparecer naquela audiência.

Vendo minha mudança de fisionomia e minha vontade de saber mais, o juiz me contou sobre as histórias que Lucas contou à eles. Sobre o abandono da mãe, a vida pulando de abrigo em abrigo e a perda do direito de morar em abrigos após completar 18 anos. E, por fim, a vida como morador de rua e viciado em crack, até o dia em que foi preso, aos 20 anos. O juiz ainda me disse que se as histórias não são verídicas, o menino estava perdendo dinheiro, pois sabia atuar e emocionar perfeitamente.
    Quando fui para o fórum, no começo desta tarde, estava triste por ter a certeza de que nunca mais em minha vida - se passasse por outra situação como essa - representaria como testemunha. Fiquei triste de decidir isso por acreditar que é nosso dever de cidadão para o progresso da sociedade. Mas decidi que não testemunharia mais, por ter as audiências marcadas em datas que atrapalhavam a minha vida, não foi por preguiça ou medo como julgou o oficial de justiça, foi porque realmente foram datas nas quais eu tinha outros compromissos me chamando, e eu não fiquei nenhum pouco feliz com o fato desta audiência atrapalhar a minha vida. E agora, após ouvir tudo isso sobre o Lucas, só consigo pensar que ao menos eu tive, tenho e seguirei tendo um vida. 
    Ninguém sabe ainda se ele compareceu à clínica, provável que não, já que não esteve presente na audiência. Mas só o fato de ter dado à ele a oportunidade de conseguir se recuperar, ter dado à ele a possibilidade de contar a história da vida dele - que foi o que fez o juiz o achar merecedor de chances - só por isso, já valeu à pena ter ido, ter atrapalhado a minha vida.
    Eu não me canso de olhar para a vida dos outros e ver que sempre devo agradecer pela minha, pelo que tenho e por quem eu tenho, ou talvez só por ter alguma coisa. É um exercício que eu faço sempre... e de repente, me vejo toda cega e cheia de egoísmos, olhando somente para a minha vida.

      Foi por egoísmo que as outras vítimas do Lucas não o fizeram ir preso anteriormente, o que evitaria outros assaltos e o daria essa chance de ficar livre da droga e ganhar a vaga na tal clínica. Era exatamente assim que eu não queria ser quando decidi levar isso adiante, e foi exatamente assim que eu acabei sendo.

    Não sei se o Lucas está livre das drogas, acho difícil, assim como eu não estou livre de egoísmo, mesmo que tente estar. Fazer alguma coisa, na prática, é sempre mais difícil do que na teoria. Me sinto "gente" de ter passado por tudo isso, e acho que talvez eu nunca me desse conta da importância disso se não estivesse ocupada nas datas em que me intimaram. Vai ver aqui sou eu e minha mania de achar que tudo acontece exatamente como devido, mas eu realmente acredito que essa é a forma que a vida age para me transformar em uma pessoa melhor quando eu não faço o trabalho sozinha. É uma conclusão boba, mas não consigo fugir disto agora, aliás, me enfio mais nisto dizendo que é meu presente de natal: terminar o ano menos egoísta. E meus votos de natal para todas as outras pessoas que, assim como eu, falam sobre fraternidade - é que cada um que fale em fraternidade pratique algo que atrapalhe sua própria vida. 

Feliz natal, para mim, para vocês e para o Lucas.

Ressignificando nossas relações

Escrevo-te assim como quem escreve para alguém que nunca amou. Não te amei, mas tentei. E eis que, por fim, surge algum tipo de amor. Não to...